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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

CHEFES DE INTELIGÊNCIA DOS EUA CHAMAM PARALISAÇÃO DE ‘PERIGO INSIDIOSO'

CHEFES DE INTELIGÊNCIA DOS EUA CHAMAM PARALISAÇÃO DE ‘PERIGO INSIDIOSO'




Líderes da comunidade de Inteligência dos EUA alertaram nesta quarta-feira que a paralisação do governo é uma ameaça "insidiosa" à segurança nacional, que aumentará quanto mais tempo milhares de empregados ficarem longe do trabalho.
"Estou no negócio da Inteligência há cerca de 50 anos. Nunca vi nada assim", disse o diretor da Inteligência Nacional dos EUA, James Clapper, em uma audiência do Comitê do Judiciário do Senado a respeito dos programas de vigilância.

"Isto (a paralisação) afeta nossa capacidade global de apoiar os militares, a diplomacia e as questões de política externa. O perigo aqui é que isto vai acumular ao longo do tempo. O dano será insidioso, então a cada dia que passa, o risco aumenta", declarou.
A incapacidade do Congresso norte-americano de acordar uma legislação orçamentária causou uma paralisação parcial do governo, já em seu segundo dia e sem fim à vista. A última vez em que o governo foi paralisado a este ponto foi em 1995 e 1996.
Clapper e o General Keith Alexander, diretor da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), falaram na audiência em um edifício do Senado silenciado pela ausência de milhares de servidores.
As agências de Inteligência já enfrentam protesto por conta da extensão da vigilância governamental sobre comunicações telefônicas e de Internet de seus cidadãos.
Clapper disse que 70% dos funcionários civis de Inteligência tiveram que ser dispensados nesta semana por não estarem lidando com uma ameaça iminente a vidas ou propriedades, mas esse número será ajustado caso a paralisação continue.

As agências de Inteligência dos EUA têm passado por um escrutínio, com público e legisladores exigindo mudanças, desde que Edward Snowden, ex-contratado da NSA, vazou informações a partir de junho segundo as quais o governo coleta muito mais dados de telefones e Internet do que se sabia até então.
Alexander, diretor da NSA, disse que as dispensas relacionadas à paralisação prejudicam a moral e que sua agência corre o risco de perder milhares de Ph.Ds, cientistas de computação e matemáticos forçados a deixar o trabalho.
"Nossa nação precisa de gente assim, e a maneira como nós tratamos essas pessoas é dizendo-lhes ‘vão para casa, porque não podemos pagá-los'", disse.

COREIA DO NORTE DIZ QUE ALIANÇA SUL-EUA GERA PERIGO DE GUERRA NUCLEAR

COREIA DO NORTE DIZ QUE ALIANÇA SUL-EUA GERA PERIGO DE GUERRA NUCLEAR




As autoridades norte-coreanas asseguraram nesta quarta-feira que a aliança defensiva entre Coreia do Sul e Estados Unidos gera "perigo de guerra nuclear", afirmação que veio em resposta aos acordos para "fortalecer o guarda-chuva nuclear" diante da ameaça do regime comunista da Coreia do Norte.
Segundo a edição desta quarta-feira do jornal governista norte-coreano "Rodong", a aliança militar entre americanos e sul-coreanos, considerada "criminosa" pelo regime, "cria um grande perigo de guerra nuclear" e "bloqueia os processos para reparar as relações entre as duas Coreias".
O texto traz uma resposta à assinatura de um acordo para fortalecer o "guarda-chuva nuclear", o qual foi firmado hoje em Seul pelo secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, e o ministro de defesa sul-coreano Kim Kwan-jin.
O regime norte-coreano também considerou que a aliança entre Coreia do Sul e EUA é "agressiva e desigual, já que perturbou a reconciliação, a unidade e a reunificação entre as duas Coreias", segundo o jornal do Partido dos Trabalhadores norte-coreano.

Além disso, a Coreia do Norte acusou os Estados Unidos de impor "todo tipo de práticas arbitrárias" a seu sócio asiático com o pretexto do acordo de defesa que ambos os países mantêm.
EUA se comprometem a defender a Coreia do Sul em caso de conflito armado com o Norte e, para isso, mantém 28,5 mil soldados em território sul-coreano como vestígio da Guerra da Coreia (1950-53).
A aliança militar entre Seul e Washington se reforçou especialmente nos últimos meses, depois que uma intensa campanha de hostilidades do regime de Kim Jong-un, iniciada entre março e abril, elevasse a tensão na região.
A Coreia do Norte e Coreia do Sul permanecem tecnicamente em confronto desde a Guerra da Coreia, a qual foi encerrada com um armistício que até hoje não foi substituído por um tratado de paz definitivo.

Novos partidos políticos

Novos partidos políticos


A fundação de novos partidos políticos surge desprovida de quaisquer projetos políticos para o país

02/10/2013 
Editorial da edição 553 do Brasil de Fato 
Há, hoje, 32 partidos políticos legalizados em nosso país. O número poderá aumentar até dia 5/10, data limite para legalizar a criação de novos partidos e assegurar suas participações nas eleições de 2014. O Partido Republicano da Ordem Social (Pros) e o Solidariedade (SDD) obtiveram na semana passada os registros no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Está na fila — e na expectativa — o partido Rede Sustentabilidade, da ex-senadora Marina Silva. 
Mesmo com todas as fragilidades e deficiências da chamada democracia representativa, os partidos políticos são instrumentos importantes na definição de políticas e conquistas democráticas de um país. São abundantemente as denúncias de corrupção e da existência de verdadeiras quadrilhas para açambarcar os cofres públicos. Práticas que não poupam nenhum dos três poderes republicanos, inclusive o do Judiciário. 
A questão, nesse quesito, não é se este partido é mais ou menos corrupto daquele outro. Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC-SP, é enfático ao defender que a corrupção se combate com um amplo e profundo processo de educação cultural do povo em defesa dos bens públicos e criando instrumentos legais para reprimir os que praticam essas ações criminosas. 
Há partidos que, mesmo hesitantes, não receiam em cortar a carne do próprio corpo para punir corruptos. Outros, preferem enfrentar a corrupção nas suas hostes promovendo a perseguição e a desmoralização dos que fazem as denúncias, impedindo a criação de CPIs, engavetando os processos, aparelhando os órgãos de fiscalização e prestação de contas e comprando o silencio e a conivência da mídia. 
Há mais de duas décadas, os defensores das políticas neoliberais, tendo o monopólio das comunicações nas mãos, promovem a desmoralização da política. Enfraqueceram e desmoralizaram os espaços institucionais que possibilitam participação popular na política, nas esferas do Legislativo e Executivo. E, fortaleceram a atuação dos órgãos institucionais do Estado burguês que veda a participação e influência popular, como o poder Judiciário, o aparato repressivo, os tribunais de contas e as agências reguladoras. Esses atores políticos são endeusados como se estivem imunes aos pecados da política. 
Já os partidos políticos, governos e parlamentares, são execrados. Não prestam! A irracionalidade — ou seria imbecilidade? — é tamanha que um partido político, o Partido Verde (PV) ocupou espaços nos meios de comunicação exibindo, insistentemente, um cartaz que pedia o fim dos políticos e dos partidos políticos. Se fosse atendido, o que iria colocar no lugar? Os generais da ditadura militar? Os filhos do Roberto Marinho, donos da Globo, acusada de sonegar dos cofres públicos mais de um bilhão de reais? Eleger, na assembleia do próprio PV, o Serra como presidente do país? Corria o risco de rachar a assembleia... 
A própria Marina Silva põe água no moinho da ignorância política, quando se diz contrária a partido e cria Rede Sustentabilidade. Há anos os grupos econômicos e latifundiários criam suas bancadas suprapartidárias, fazendo pouco caso das estruturas partidárias e do princípio de fidelidade partidária. Prática essa que está no cerne da corrupção de parlamentares. 
Na mídia, esse movimento de desmoralizar a participação na política é complementado com uma agressiva campanha midiática para tornar-se porta voz da opinião pública. Como se isso fosse possível diante do seu perfil reacionário, oligopolizado, antissocial e com um histórico de atuação política que a identifica com o golpe militar de 1964. 
Exatamente por acreditar no mundo fantasioso que criam em suas redações, não compreenderam absolutamente nada das mobilizações que ocorreram em junho. Pensavam que ao destacar alguns cartazes contra a corrupção ou contra a PEC 37 era suficiente para ter o controle daquelas mobilizações. 
Imaginavam que o fato se repetiria nos desfiles de 7 de setembro, contra o governo federal, e no julgamento dos embargos infringentes da AP470, o mensalão petista. Como o povo não atendeu seus chamados, bastou para que seus colunistas — os chamados rola-bosta, nas acertadas palavras do teólogo Leonardo Boff — voltassem ao seu estado natural: criticar o povo, subestimando sua capacidade de discernimento político. 
Defender e valorizar a atuação partidária, abrindo espaços para a participação do povo não apenas nos calendários eleitorais, não nos exime de fazer uma crítica e exigir profundas mudanças na legislação partidária do país. 
A fundação de novos partidos políticos surge desprovida de quaisquer projetos políticos para o pais. Não são portadores de nenhuma mensagem política para sociedade. Parece ser apenas um acerto entre grupos de parlamentares, interessados em se situar melhor no pleito eleitoral do ano que vem e, assim, quem sabe, usufruir melhor dos governos eleitos ou reeleitos. Intenção que sequer espera o resultado eleitoral. 
Já agora, parece haver negociações que visam apenas interesses particulares (obscuros?) e, praticamente nada de política com P maiúsculo, como diria A. Gramsci. 
Os grupos econômicos e financeiros não estão alheios a essas motivações de criação e trocas de partidos políticos. Às vezes, um telefonema de um empresário é suficiente para um parlamentar trocar suas convicções partidárias. 
Restará ao grupo Itaú — maior crítico da política econômica do atual governo e defensor da retorno da ciranda financeira dos juros altos — esclarecer à sociedade sobre todo seu empenho e interesses na fundação de uma novo partido. 
Os que promoveram as privatizações e abarrotaram os cofres dos bancos, já não servem mais? Nesse cenário, que sejam bem vindos os novos partidos políticos. Mas, acima de tudo, que seja bem vinda uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva, para prover uma profunda reforma eleitoral e tributária e que promova uma nova lei de comunicação que assegure os interesses do povo brasileiro e da soberania nacional, e não dos barões da mídia.

“Esconder o racismo não o faz ir embora”, diz ex-pantera negra

“Esconder o racismo não o faz ir embora”, diz ex-pantera negra


A ex-pantera negra Ericka Huggins relembra a luta contra o racismo nos EUA durante os anos de 1960 e 1970 e diz que ainda há muito que avançar: “me recuso a desistir”
02/10/2013
Daniele Silveira, Guilherme Zocchio, José Coutinho Jr. e Viviane Araújo
de Guararema (SP)
“O governo queria que esperássemos, mas éramos jovens e impacientes. Esperamos centenas de anos após o fim da escravidão.” Assim Ericka Huggins, professora universitária e socióloga, hoje com 64 anos, definiu sua militância quando era jovem no Partido dos Panteras Negras (em inglês, BPP – Black Panther Party), nos Estados Unidos.
Ericka esteve recentemente no Brasil, onde visitou diversas universidades e escolas para relatar sua história de vida e trajetória no movimento negro estadunidense nos anos de 1960 e 1970.
Aos 15 anos, presenciou o histórico discurso de Martin Luther King em defesa dos direitos civis dos negros, episódio que influenciou sua decisão de entrar na luta política. Três anos mais tarde, em 1967, entrou para o BPP, que existia havia um ano. Lá, conheceu John Huggins, que se tornaria seu marido e companheiro.
O BPP era formado majoritariamente por jovens: a média de idade de seus integrantes era 19 anos. Seu propósito era libertar pessoas pobres e oprimidas. Apesar de ser retratado na mídia como um grupo violento, o partido realizou diversas ações que beneficiaram as pessoas mais carentes, como café da manhã gratuito para crianças, criação de clínicas de saúde, doações de roupas e sapatos e uma escola comunitária na cidade de Oakland, além do trabalho político com as comunidades.
Por realizar ações que desafiavam a ordem política vigente nos Estados Unidos, o BPP se tornou rapidamente uma das maiores ameaças para o Estado, que, especialmente por meio das forças policiais e do sistema judiciário, fez de tudo para erradicá-lo.
Em 1973, 28 panteras já haviam sido assassinados, incluindo o marido de Ericka, que morreu um mês após o nascimento da filha dos dois. Ela o enterrou em New Haven, cidade natal dele, e lá fundou uma filial do BPP. Pouco tempo depois foi presa, acusada de conspiração.
Após dois anos na prisão, conseguiu ser solta e, até 1981, atuou no partido e na escola comunitária de Oakland.
Nesta entrevista exclusiva, concedida durante a passagem dela pela Escola Nacional Florestan Fernandes, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Ericka analisa as formas como o racismo se manifesta na sociedade, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, e afirma: as ideias racistas são um hábito, calcadas em um sistema econômico baseado na desigualdade.
Brasil de Fato — A primeira coisa que pensamos em perguntar é: o que é ser uma pantera negra?
Ericka Huggins — Bem, isso foi há 40 anos.
Sim. Mas como você disse, ainda é uma pantera negra no coração. Então, como foi antes, ou como é agora?
Os dois.
Naquela época foi desafiador, difícil. Achávamos que o que estávamos fazendo não era suficiente, que não faria uma diferença importante, porque nosso trabalho era tão grande e tão difícil. E agora eu olho para trás e vejo que tudo o que nós fizemos deixou um marco e fez alguma diferença para as gerações daquela época e de agora.
Os Panteras Negras atuavam diretamente com a sua base. Como vocês faziam para trabalhar com as pessoas?
Nós viemos dessas pessoas, por isso sabíamos como trabalhar com elas e fazer a pergunta certa a fim de ajudá-las. Nem todo mundo precisa vir das pessoas para ajudá-las, mas alguém na sua organização deve estar diretamente conectado e continuamente se reconectando a elas. E era isso o que nós fazíamos.
Primeiro dizíamos quem éramos e por que existíamos. E falávamos na língua delas e deixávamos claro que gostaríamos de saber do que precisavam. Nós sabíamos que a brutalidade policial impactava a todos, porque muita gente vinha ao nosso diretório para dizer “meu filho levou um tiro” ou “minha filha está presa”. Não os influenciávamos a serem políticos. E, quando falávamos sobre política, tentávamos garantir que as necessidades básicas, como se os filhos passariam fome ou encontrariam um emprego, estivessem resolvidas.
E o que é o racismo?
(pausa) Qual é sua pergunta por trás? É uma questão tão ampla.
Gostaria que você definisse.
Talvez você pudesse me dizer primeiro o que acha que é e, então, discutimos um pouco.
É um conceito criado pela sociedade para separar as pessoas. No caso do racismo, pela cor da pele. O conceito de que há uma cor boa e uma cor ruim, inferior.
Sim. Isso é racismo. Respondeu a sua pergunta. É um sistema de vantagens, de privilégios baseado na raça. Então, eu e você podemos concorrer a um emprego. Vamos supor que somos da mesma cor.Como um homem, você provavelmente vá conseguir um emprego mais rápido do que eu, porque sou mulher.
Mas se nós adicionarmos a raça a isso, eu poderia nem concorrer àquele trabalho. Em alguns países, o racismo é uma doença, porque depois de se criar uma história de que há uma cor boa e uma cor ruim, as pessoas que acham que isso é verdade passam para os filhos, que passam para os filhos, que passam para os filhos…
Você considera o Brasil um país racista? Porque nós temos aqui a ideia de que vivemos em uma democracia racial.
O que você acha?
Eu acho que o Brasil é, sim, racista. A noção de que não existe racismo serve para esconder essa realidade.
Para varrê-lo para debaixo do tapete?
Exatamente. Para esconder que o Brasil é, de fato, racista.
Sim, tal como nos Estados Unidos, como na Europa. É assim no mundo inteiro. No entanto, sempre há dinheiro e poder por trás dessa ideia para fazê-la funcionar e torná-la sistêmica. De outra forma, não duraria. Todas as instituições da sociedade a naturalizam.
E se não falarmos do racismo, o que acontece?
Esconder uma doença não a faz ir embora. Se você tem câncer de pele, não pode colocar um band-aid por cima. E nós não coexistimos. Se coexistíssemos, 600 pessoas negras não teriam sido mortas em maio de 2006 na periferia de São Paulo pela polícia. Por que isso acontece? Também dizem que não há mais racismo nos Estados Unidos porque Obama foi eleito presidente. Os euro-estadunidenses estão dizendo isso porque acreditam que o racismo vai acabar por colocarem um homem em um escritório. Mas isso só vai realmente acabar quando educarmos a nós mesmos sobre como o racismo se manifesta.
E quando você percebeu, pela primeira vez, que a sociedade é racista?
Eu tinha em torno de oito anos de idade. Fui à loja da esquina e havia um menino e uma menina pequenos por lá, eles eram brancos. Chamaram-me de “negona” [nigger] e cuspiram em mim. Eu não os conhecia e eles não me conheciam. Provavelmente, seus pais haviam lhes contado que eu não era humana. Depois, quando contei à minha mãe, perguntei por que aquelas crianças eram tão ruins, por que haviam me chamado daquele jeito. Então minha mãe me explicou sobre a escravidão. Eu espero que chegue um dia em que os pais não precisem contar a seus filhos a respeito da diferença da cor da pele. Também espero pelo dia em que mulheres sejam tratadas ou valorizadas da mesma forma que os homens são. Isso também começa com as crianças.
“O foco eram os negros e latinos. Queríamos que eles tivessem orgulho de suas identidades”, lembra Ericka. Foto: Guilherme Zocchio
Você acredita que essa mudança começa com as pessoas oprimidas tomando consciência de sua própria situação?
Isso já acontece. Mas as pessoas que não são oprimidas também tem de refletir sobre seu papel. O que você acha que significa ser branco? Significa que você pode ir a qualquer lugar do mundo?
Normalmente.
O que é normal?
Sem restrições, sem alguém me perguntar por que vou a tal lugar.
Exatamente. Mas milhões de pessoas não vivem dessa forma. Para isso mudar, é preciso entender o que significam as formas de privilégio e discuti-las. Minha mãe é cega, e sempre penso no privilégio de ter a visão. Quando encaro algo dessa forma, sinto-me humilde. E quando você se posiciona ao lado de pessoas que não têm privilégios, está realmente ajudando. Se entender isso, você se tornará uma pessoa melhor, mais profunda e mais compassiva e será capaz de passar isso àqueles a sua volta. As pessoas estariam dizendo e fazendo coisas para acabar com idéias atrasadas.
Falando a respeito das mulheres, no começo dos Panteras Negras elas não tinham o mesmo privilégio dos homens. Então, como foi possível igualar os direitos das mulheres dentro do partido?
Nós tínhamos aulas de formação política e conversávamos sobre o assunto. Falávamos com frequência sobre poder em nossas relações íntimas, em nossos trabalhos e em nossas aulas de formação política. E as coisas mudaram. Mas isso não significa que todos mudaram no interior de seus corações. Porque tínhamos 18 anos e ainda havia alguns que tinham ideias atrasadas. Toda vez que havia algo sexista surgindo nós apontávamos. “Você não pode tocar no meu corpo sem a minha permissão”, “sabe, você não pode me chamar de tal jeito”, “não, eu não quero dormir com você”, “vivemos coletivamente, mas não dormimos coletivamente”. Eram coisas simples, que aconteciam no dia a dia. Pensávamos que veríamos um novo mundo durante nossas vidas, e não queríamos trazer o velho mundo para o novo.
Os jornais, os pôsteres e as imagens do movimento eram todas muito bonitas. Por que essa importância à arte?
Porque muitas pessoas não podiam ler ou escrever, e a arte fala sem precisar de palavras. Nós críamos arte para a causa do povo e não arte pela causa da arte. Era muito importante entender as coisas como parte do mundo real, e não simplesmente como uma retórica política vazia. Queríamos que as pessoas entendessem como pensar sobre o mundo a partir da própria experiência. E queríamos que elas vissem a si mesmas como bonitas. Especialmente porque o mundo inteiro as dizia que eram feias e estúpidas. Não rebaixávamos ninguém. Não queríamos diminuir as outras raças ou os outros para nos fazer brilhar. Isso é o que o racismo faz: umas pessoas parecerem ruins para outras parecerem boas.
Você pode falar mais sobre o projeto da escola comunitária de Oakland?
O foco eram os estudantes, negros e latinos. Uma das coisas mais importantes era que eles tivessem orgulho de suas identidades. Tínhamos um princípio chamado “não fofoque, investigue”. Se uma criança tinha uma ideia preconcebida sobre a outra e nós descobríssemos, dizíamos a ela para buscar a verdade sobre a pessoa e depois nos contar. E nós tínhamos um conselho estudantil, formado pelas crianças e por um adulto, que geralmente ficava quieto, só monitorando, responsável por ajudar os colegas a cumprirem suas tarefas e ir bem nas aulas.  Descobríamos por esse conselho que algumas crianças tinham dificuldades em aprender porque a forma como aprendem é diferente, e nós as ajudávamos. Entendíamos cada criança e nos focávamos em cada estudante da escola individualmente.  Servíamos três refeições por dia. Tínhamos uma relação com o hospital infantil local, porque se alguma delas ficasse doentes, queríamos ter certeza de que pudesse ser atendida sem qualquer custo. Se os pais dos estudantes não tinham carro, nós os pegávamos de ônibus e levávamos de volta à noite. Sabíamos os nomes, a idade e éramos amigos dos pais de todas as crianças.
Como exercitar a criança a pensar por si mesma sem forçar um método de ensino?
Um jeito é resolver problemas em grupos. E também dizer a elas o tempo todo o quão inteligente são. A nossa escola tinha uma música tema, chamada “Nós podemos fazer o que quisermos”. Quando as crianças são amadas e incentivadas, elas querem aprender. E nós fizemos o aprendizado algo divertido, uma aventura.
Observando essa entrevista, com você nos pedindo respostas a nossas próprias perguntas, você acha que as concepções que temos sobre raça, gênero e preconceitos em geral mudariam se nos colocássemos no lugar das outras pessoas?
Eu acho. Quando estava na cadeia, me levavam da prisão ao tribunal num carro, e eu estava sempre algemada. Sempre ia no mesmo carro, com os mesmos policiais, e sabia que esses dois policiais brancos não me viam como ser humano. Um deles disse isso. Eles só me chamavam de “a pantera”. Não me davam bom dia, não me cumprimentavam. Todo dia, durante meses, fiz esse caminho com eles. Eu ficava isolada na prisão, não podia sair muito, nem ir ao espaço de lazer. Um dia em que fazia calor e o sol brilhava com força, ao chegar ao tribunal saí do carro com a ajuda de um dos policiais. Olhei para o sol e disse: “olha o sol, está tão lindo, não acha?”. Ele olhou para mim e respondeu: “sim, Huggins, está lindo mesmo”. Ele estava sorrindo. Depois disso ficamos amigos. Imagina se nós agíssemos assim numa escala maior. Se levarmos esse pensamento para o mundo, no dia a dia, e considerarmos toda pessoa como nós, ou parte de nós. Não importa a cor de pele, a forma dos olhos, as genitais, ou quem ela ama, ou se é rica ou pobre. Acho que se fizéssemos isso por alguns minutos no dia ao redor do mundo, ele mudaria.
Eu tenho esperança nessa grande possibilidade, mas não á algo que vem das nossas cabeças, é uma cultura de amor.  Nós não estaríamos falando sobre homofobia, racismo, machismo, classes sociais, violência se vivêssemos numa cultura de amor. Estaríamos pensando em como as estrelas ficam no céu, como fazer colheitas melhores… mas tanto espaço cognitivo é usado tentando se adaptar, tentando batalhar contra injustiças ridículas.
Como você consegue falar de uma cultura de amor considerando sua história de vida?
Porque era isso que eu sempre quis, e me recuso a desistir disso. Sempre que vejo violência, ódio ou preconceito dentro de mim sei que sou eu quem deve me livrar disso. Quando estou com outras pessoas não quero raiva, tristeza atrás de mim, quero apenas estar bem. Sim, minha história foi difícil, minha vida foi dura, mas também é bonita.
Foto: Guilherme Zocchio

Uma madrugada em meio à luta de classes na Amazônia

Uma madrugada em meio à luta de classes na Amazônia



No Pará, famílias sem-terra resistem bravamente à  investida violenta de fazendeiros de Parauapebas e Curionópolis com a conivência da polícia
02/10/2013
Amaral Lima
da Reportagem
É uma hora da manhã da madrugada de sábado (21) e uma primeira rajada de metralhadora é disparada contras as famílias organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do acampamento Frei Henri, no sudeste paraense.
“Essa madrugada promete”, diz um dos acampados que faz a segurança do acampamento. Uma e meia da manhã os disparos se tornam incessantes e é hora de ter atenção redobrada para ninguém se ferir e evitar que o acampamento seja invadido pelos fazendeiros e seus jagunços contratados.
Os tiros são feitos da entrada da Fazenda Fazendinha, de uma guarita de madeira do alto de um morro, que serve de local estratégico para pistoleiros e fazendeiros mirarem nos barracos das famílias postados a cerca de 300 metros abaixo. O cenário é de guerra, várias trincheiras são montadas no entorno do acampamento e mais de 70 pessoas, entre homes e mulheres, estão intocados na mata estrategicamente para proteger o local.
Nos barracos de madeira, as famílias deixam as redes e improvisam colchões no chão, para se defenderem das balas. Tudo isso acontece às margens da movimentada rodovia PA-150, que liga Marabá a Parauapebas.
A reportagem do Brasil de Fato está numa das trincheiras, de onde é possível observar que o balanço das folhas das árvores e a poeira que levanta do chão não são efeitos do vento, mas sim da chuva de chumbo que cai sobre o acampamento.
Na trincheira elaborada por uma série de pneus e sacos de areia, está Tonico*, deitado ao chão com uma caixa de fogos de artifício, única “arma” utilizada pelas famílias para afugentar os jagunços que chegam às cercanias da ocupação. “Eles vão passar a noite atirando, e nós ficamos aqui, se alguém se aproximar soltamos rojões para assustá-los”, diz.
Ninguém dorme
Ao visitar algumas casas pela madrugada se constata que pouco ou quase ninguém consegue dormir. No primeiro barraco perto de umas das barreiras de proteção do Frei Henri, está Elizabeth*, preocupada. Em sua morada, apenas a fi lha de dez meses e seus outros dois fi lhos dormem tranquilamente. Ela e o marido passam a noite acordados temendo que algo de ruim aconteça com a família.
“Medo eu tenho, mas sair daqui, não, morávamos na cidade de Parauapebas, mas o desemprego é grande e o aluguel é caro e quem casa quer casa, né? Por isso, decidimos ocupar essa terra aqui, para melhorar nossa vida”, conta.
A fi lha, que dorme protegida por uma cômoda, nasceu de sete meses com vários problemas mentais devido à gravidez conturbada que Elizabeth teve. “O médico fala que ela nasceu especial porque eu sofri muito com essa situação dos fazendeiros atirando na gente toda noite”, diz.
Passam das três da manhã, os tiros continuam e numa das trincheiras do acampamento, às margens da rodovia, são soltos fogos de artifício, sinal de que há alguma situação de risco na área. Na direção onde o rojão foi solto correm vários homens e entre eles uma mulher, Maria*.
Cansada, diz que não dorme há mais de uma semana, desde que os ataques recomeçaram. Ela é uma das responsáveis pela brigada de defesa do acampamento. “Moço eu não tenho medo de morrer, não, já passei perto de morrer e não morri, então, acho que agora não morro mais.”
Maria se refere às ameaças que sofreu quando ia vender suas verduras produzidas no acampamento paras as feiras de Parauapebas. “Foi por telefone e me disseram: ‘Ou você sai da beira da estrada ou eu te mato’. Era voz de homem e disse meu nome e tudo mais.”
Largar a terra pela ameaça dos fazendeiros não passa pela cabeça dessa mulher de estatura média, cor negra, rosto manchado do sol, e uma olheira profunda. “Eu fui garimpeira na década de 1980, e faz tempo que acompanho o MST, agora quero minha terra. Só isso”, protesta Maria.
Cessando as balas
Às quatro e meia da manhã os tiros diminuem. Seu Edvaldo está de espreita na porta de seu barraco acompanhando a movimentação. Produtor de mandioca e hortaliças orgânicas, não consegue mais sair para vender seus produtos agrícolas na cidade.
“Os fazendeiros estão botando muita pressão, param as vans que transportam passageiros entre os municípios e perguntam se tem sem-terra, perseguem a gente, outro dia um pistoleiro colocou a arma na minha cabeça e mandou eu voltar para o acampamento senão ia me matar”, relata.
O dia amanhece e os tiros cessam por completo. As famílias voltam a ter, mesmo que repentinamente, um momento de paz. Em uma semana de ataque completada no sábado, apenas uma mulher e uma criança se feriram levemente por balas de raspão.
“A investida permanente dos fazendeiros fortemente armados contra o acampamento tentando fazer a expulsão das famílias na marra é crime e a polícia precisava investigar isso”, cobra o advogado da Pastoral da Terra de Marabá, José Batista Afonso.
(*nomes fictícios)
Foto: Antonia Borges

Livro analisa relação entre energia e conflitos globais

Livro analisa relação entre energia e conflitos globais



O livro “Energia e relações internacionais”, de Igor Fuser, dá uma visão ampla e fundamentada do jogo pesado do mercado mundial e torna-se leitura indispensável em tempos de leilões do pré-sal e debates sobre qualidade e preço no fornecimento de eletricidade. Embora as contendas tenham como palco preferencial a periferia do mundo – o Oriente Médio, a Ásia, a América Latina e a África – os atores centrais jogam suas fichas a partir do norte. Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e Rússia estabeleceram por décadas a fio as regras e modos da modalidade. Por Gilberto Maringoni.


São Paulo - Há na praça um livro essencial para quem desejar entender as razões de várias das tensões globais de nossos dias. A capa não é lá muito atraente, mas o título é preciso: “Energia e relações internacionais” (Editora Saraiva, R$ 54). O autor é Igor Fuser, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC) e um dos grandes especialistas brasileiros em geopolítica energética. 


A obra não se perde em tecnicismos inacessíveis ao leitor leigo. Ao contrário, é clara e direta. Fuser, jornalista por formação, com mais de 25 anos de estrada nas editorias internacionais da grande imprensa, tem texto preciso e cativante. Mostra os interesses em jogo na arena planetária, apresenta as vertentes interpretativas e faz uma sintética genealogia histórica do assunto. 



O “ouro negro”
O centro do trabalho é o petróleo, embora não se descuide de outras fontes de energia. A justificativa está em dados cristalinos: “O petróleo forneceu 35,3% de toda a energia consumida no planeta em 2009. O carvão foi responsável por 23,2% e o gás natural por 21,1%. Assim, os três combustíveis fósseis responderam, no conjunto, por 79,5% da energia primária em escala mundial”. 



A busca por veios do ouro negro, como se falava em outros tempos, teve papel destacado nos grandes conflitos dos últimos cem anos. Toda a movimentação diplomática e bélica das potências mundiais apresentou como bússola a tentativa de se garantir fornecimento contínuo, seguro e barato de combustíveis para mover as engrenagens de suas economias. 



Atores centrais
Farto em números e estatísticas, sem ser maçante, “Energia e relações internacionais” assinala ainda que um terço de todas as reservas conhecidas de petróleo se encontram no espaço geopolítico do Oriente Médio e do Norte da África.



Não sem razão, já em 1980, o presidente dos EUA, Jimmy Carter anunciou que seu país considerava a região de interesse vital e que estariam dispostos a defendê-la por “todos os meios necessários, inclusive a força militar”. Algo que se mostra dramaticamente verdadeiro nesta segunda década do século XXI. 



Os embates são pesados: “No tabuleiro geopolítico, a competição entre as potências pelo acesso às fontes petrolíferas remonta ao início do século XX. Por trás das companhias do setor, encontram-se sempre os interesses de algum governo poderoso”. 



Mais adiante, Fuser completa: “A característica geográfica particular dos hidrocarbonetos (petróleo e gás natural), cujas reservas se distribuem pelo planeta de modo muito desigual, ressalta sua importância na esfera das relações internacionais”.



Embora as contendas tenham como palco preferencial a periferia do mundo – o Oriente Médio, a Ásia, a América Latina e a África – os atores centrais jogam suas fichas a partir do norte. Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e Rússia estabeleceram por décadas a fio as regras e modos da modalidade, juntamente com suas empresas. 



Um novo agente entrou na peleja recentemente. Trata-se da China, buscando alimentar sua formidável dinâmica desenvolvimentista. Ao lado dos Estados Unidos e Rússia, forma o pequeno grupo de países com poder de intervenção real na cena petroleira global.



Papel do Estado
Ao longo das páginas, o professor da UFABC mostra como as diferentes teorias das relações internacionais encaram a questão energética. “Por se tratarem de recursos estratégicos ligados à segurança nacional, o petróleo e o gás natural não podem ser encarados como simples mercadorias, regidas apenas pelas forças de mercado”, assinala ao tratar da organização do setor.



Fuser cita o pesquisador alemão radicado na Venezuela, Bernard Mommer, um dos mais respeitados estudiosos da geopolítica do petróleo, para comentar as diferentes perspectivas existentes no segmento. De um lado, em geral, estão as transnacionais e os Estados consumidores. De outro, perfilam-se os Estados produtores. 



Ou seja, nem mesmo os liberais mais radicais dispensam a intervenção do poder público no jogo petrolífero. 



Isso se torna evidente na seguinte afirmação: “Na lista das empresas com as maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, os dez primeiros lugares são ocupados por estatais que, em 2011, controlavam 85% das reservas provadas em escala global”. 



Ou seja, petróleo e energia são temas muito sérios para serem atrelados às volatilidades do livre-mercado.



O tabuleiro internacional
O livro mostra em detalhes como se forma o mercado internacional. Ele é integrado prioritariamente pela Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), criada em 1960, e pela Associação Internacional de Energia (AIE), lançada em 1974, composta pelos países ricos, grandes consumidores do produto. 



A definição dos preços é tensionada constantemente pelo controle da oferta e pela formidável pressão da demanda internacional, contando ainda com uma série de expedientes especulativos e pela “percepção dos investidores em relação a todo um conjunto de variáveis econômicas”.



Integração energética
O livro não descuida de formas de energia como as geradas por fontes hídricas e eólicas, os biocombustíveis, o gás e a energia nuclear. Em cada uma, é examinado o impacto ambiental e os possíveis danos causados à natureza. 



O último capítulo de “Energia e relações internacionais” joga luz nos projetos de integração energética da América do Sul, a partir da virada do século. Aqui também se manifestam duas visões. A primeira é aquela que coloca o mercado como organizador em última instância de qualquer proposta de articulação continental e a segunda aponta para decisões na esfera do Estado.



Igor Fuser vem se firmando como uma das vozes mais qualificadas do país nos debates sobre política e energia. Em 2008, ele já publicara “Petróleo e poder: o envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico” (Editora Unesp). O novo trabalho complementa e amplia suas pesquisas anteriores, buscando audiência num público mais amplo do que os especialistas na matéria.



Fotos: Divulgação 


Fluxo de imigrantes na Grande São Paulo cai

Fluxo de imigrantes na Grande São Paulo cai



FERNANDA MENA

DE SÃO PAULO - 30/09/2013

Baianos, mineiros, pernambucanos, cearenses e paranaenses. São esses os principais grupos de imigrantes brasileiros que habitam hoje a Grande São Paulo.
A Pnad 2012 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) mostra que a região metropolitana tem hoje 20,2 milhões de habitantes.
Cerca de 5,5 milhões deles nasceram fora do Estado de São Paulo --uma população maior que a de países como Noruega, Irlanda e Uruguai.
O movimento, no entanto, representa a diminuição da presença de imigrantes no caldeirão paulista.
Se nos anos 1970, a cada dez habitantes da região metropolitana de São Paulo, seis eram imigrantes do restante do país ou do exterior, hoje essa razão é de três forasteiros para cada dez moradores.
Isso se deve a dois fatores: primeiro ao fato de filhos dos imigrantes daquela década já terem nascido na Grande São Paulo e serem contabilizados como tal; e em segundo lugar ao fluxo e refluxo migratório que caracteriza os deslocamentos do século 21.
"Embora haja continuidade dos mesmos fluxos migratórios do século 19 e 20, a nova face da imigração a São Paulo é o retorno", avalia Rosana Baeninger, professora da Unicamp e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos de População).
A demógrafa afirma que, segundo dados do Censo 2010, cerca de 2,3 milhões de migrantes se mudaram para São Paulo entre 2000 e 2010 ao mesmo tempo em que 1,8 milhão deixaram a região metropolitana no período.
"Sessenta por cento daqueles que saíram de São Paulo são migrantes de retorno [que estão voltando a suas regiões de origem] e 40% são, em geral, filhos de imigrantes", diz. "São Paulo se tornou área de rotatividade migratória."

Editoria de Arte/Folhapress

ÚLTIMA VINDA
Morador da zona leste de São Paulo, Vilmar Rodrigues, 37, quer voltar à cidade natal de uma vez por todas.
Mineiro de Itaobim, um município de 21 mil habitantes a 617 quilômetros de Belo Horizonte, chegou a São Paulo pela primeira vez em 2000.

Essa sua nova temporada na capital paulista foi até 2006, quando voltou a Minas. Mas não conseguiu ficar muito tempo lá: em 2008, pegou novamente um ônibus para tentar a vida em São Paulo.
Agora, afirma, está decidido a voltar de vez a Itaobim. "O aluguel em São Paulo é caro, não consegui comprar uma moto nem carro nem casa. Não me arrependo, mas não foi bom", diz.
Se os planos de Rodrigues derem certo, dezembro será o último mês dele aqui.
Rodrigues está desempregado, mas voltará com novas habilidades: trabalhou como garçom, marceneiro e motorista. E fez um curso para aprender o ofício de torneiro mecânico.
Segundo ele, Itaobim "agora está melhorando, tem empresas que vão para lá".
RAÍZES HISTÓRICAS
Mineiros começaram a se mudar para São Paulo no início do século 19, com a falência do ciclo da mineração.
Baianos e pernambucanos foram inicialmente recrutados nos anos 1930 pela Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização (Caic), uma iniciativa da Companhia Paulista de Estradas de Ferro para obter mão de obra agrícola quando os fluxos de estrangeiros (principalmente de italianos) diminuíram.
"A desigualdade sempre foi um fator de deslocamento de nordestinos para São Paulo, mas houve um estímulo institucional que facilitou isso", diz a demógrafa.
Para Baeninger, os imigrantes nordestinos ainda "são populações extremante importantes para a economia paulistana".
terra estrangeira

A Pnad 2012 também aponta que São Paulo tem hoje 223 mil estrangeiros vivendo em sua região metropolitana. Eles correspondem a apenas 0,52% da população local.
A pesquisa não faz distinção de grupos ou nacionalidades e contabiliza aí tanto integrantes de ondas migratórias antigas, como a japonesa, quanto as mais recentes, como a boliviana.
Estudo do Observatório das Migrações em São Paulo detectou uma mudança no padrão dessa imigração estrangeira à São Paulo: grupos de bolivianos, paraguaios, chineses e coreanos têm ido para o interior do Estado trabalhar na agricultura, indústrias e comércio.
Colaborou FELIPE GUTIERREZ