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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Queda de nascimentos no Brasil desafia o equilíbrio da economia

Queda de nascimentos no Brasil desafia o equilíbrio da economia


Casais que optam por não ter filhos já representam uma em cada cinco famílias no país

 São Paulo 17 FEB 2015
Eveli Bacchi veio de uma família grande, mas resolveu ter apenas uma filha. / VICTOR MORIYAMA
Casada há 12 anos, a psicóloga Aline Rosa, de 34 anos, jamais pensou em ter filhos. “Nunca tive um desejo naturalizado e sou contra essa ideia que a mulher só se sente completa quando engravida”, explica. Ela confessa que é bastante cobrada nos espaços pelos quais transita e que a pergunta “quando vocês vão ter um filho?” é recorrente entre familiares, amigos e colegas de trabalho. “As pessoas têm muita dificuldade de aceitar, mas reitero sempre que foi uma escolha dos dois e que a construímos sem culpa. Nunca tivemos essa vontade de ter um bebê”, afirma. Assim como Aline e o marido, um número cada vez maior de casais brasileiros compartilham essa decisão.
Segundo pesquisa do IBGE, a proporção de famílias formadas por casais sem filhos cresceu 33% no Brasil entre 2004 e 2013. Ao longo desse período, houve queda de 13,7% na proporção dos casais com filhos (de 50,9% para 43,9%). Já o número de casais sem herdeiros cresceu de 14,6% para 19,4%. Em 2013, uma em cada cinco casais brasileiros não tinha filhos, de acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2014. Especialistas alertam, no entanto, que a consolidação dessa configuração familiar reduzida aliada ao crescimento da esperança de vida significará, em um futuro próximo, menos profissionais jovens no mercado de trabalho, mais custos com aposentadorias e um risco de queda no crescimento econômico.
A tendência de queda no número da taxa de natalidade não é nova. O número de filhos por mulher vem se reduzindo desde a década de 1960, a exemplo do que ocorreu também em vários outros países. Se em 1970, as brasileiras tinham, em média, 5,8 filhos, hoje, esse número não chega a 2, taxa em que a população não se repõe. O número de nascimentos caiu 13,3% entre 2000 e 2012, quando a taxa de fecundidade foi de 1,77 filho por mulher, contra 2,29 em relação ao período anterior. Os motivos para essa diminuição são vários: maior escolarização, aumento do número de mulheres no mercado de trabalho, uso maior de contraceptivo, entre outros.
Com a população ativa menor e mais aposentados, o desafio será equilibrar as contas da Previdência e o mercado de trabalho, de acordo com Ivan Santana, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. “Atualmente, gastamos 10% do PIB com a aposentadoria, número parecido ao da Espanha e de Portugal que possuem uma população muito mais velha que a nossa. Algo tem que ser feito agora, senão vamos gastar cerca de 20% do PIB lá na frente. Precisamos de uma reforma da Previdência, mas como é um tema tratado de uma forma muito emotiva, nenhum presidente quer tocá-la",  explica Santana que ressalta que a economia informal também contribui para desequilibrar a conta da Previdência.
Exercício demográfico realizado pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG indicou que no ano de 2050 o Brasil deve perder 30 milhões de potenciais contribuintes da Previdência Social. Além da preocupação com os efeitos de um maior investimento com gastos públicos destinados para a aposentadoria, Leila Ervatti, pesquisadora do IBGE, alerta para a questão da atenção à população idosa, já que o envelhecimento da população se dá no país como um todo.
“Precisaremos de muito mais estrutura para eles”, afirma. Segundo a pesquisadora, a razão entre a população potencialmente inativa (0 a 14 anos e 65 ou mais de idade) e a ativa (15 a 64 anos de idade), chamada de razão de dependência vai atingir o seu valor máximo em 2022. “E, a partir de 2037, os idosos vão passar a depender mais da população ativa do que os jovens”, explica.
Outro fator que contribui para o envelhecimento da população brasileira é o aumento da expectativa de vida. Em apenas um ano, os brasileiros ganharam, em média, quase quatro meses a mais de expectativa de vida. Segundo dados do IBGE, a esperança de vida ao nascer da população do país atingiu 74,9 anos em 2013. “O ponto crucial é que, em 30 anos, estaremos vivendo 10 anos mais. Hoje um brasileiro vive mais ou menos 25 anos aposentando. Em 30 anos, podemos aumentar essa taxa para mais uma década. O jovem de hoje terá muito mais tempo aposentado”, afirma Santana.

Brasileiras engravidam cada vez mais tarde

O número de mães de primeira viagem com mais de 30 anos cresceu na última década, de acordo com estudo Saúde Brasil, do Ministério da Saúde. A pesquisa aponta que quanto maior o grau de escolaridade, mais tarde as mulheres optam pelo primeiro parto.
Segundo o Saúde Brasil, o percentual de mães com primeiro filho na faixa de 30 anos passou de 22,5%, em 2000, para 30,2%, em 2012. Já o número de mulheres com menos de 19 anos, que tiveram filhos, caiu de 23,5% para 19,3% no mesmo período.

"Não me imagino responsável por outra pessoa"

"Não me imagino responsável por outra pessoa. Sou muito independente", diz a analista de marketing Elô Kyrmse, de 26 anos, para explicar porque não pretende ter filhos. Ela e a mãe, a aposentada Eveli Bacchi, de 62 anos, são o retrato da mudança demográfica no Brasil. Eveli veio de uma família grande, com quatro irmãos, mas só teve Elô como filha. 
“Tenho uma previdência privada e nem penso em aposentadoria, não quero ficar na inatividade, a minha ideia é trabalhar o máximo que puder”, diz Elô, que resolveu acatar conselho da mãe de que era preciso economizar já que “nunca se sabe o que vai ser do futuro”. 
Elô não é a única a se preocupar. De acordo com pesquisa realizada pela gestora de investimentos BlackRock, os brasileiros dizem reconhecer a importância da economia necessária para a aposentadoria, mas a quantidade poupada por pessoas próximas à idade de se deixar o trabalho não é suficiente. O montante financiaria menos de um ano da aposentadoria desejada dos entrevistados. O estudo, realizado com 4.000 latinos-americanos de Brasil, Chile, Colômbia e México, mostrou que os brasileiros economizaram uma média de R$ 10 mil reais para a aposentadoria. Porém, eles precisariam de 47 mil reais anuais para alcançar o valor almejado. 
“O aumento da longevidade tornou mais necessário que nunca que as pessoas em todo o mundo se planejem, economizem e invistam durante seus anos de trabalho a fim de atingir a segurança financeira na aposentadoria”, afirma Armando Senra, diretor da Black Rock.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/17/politica/1424196059_041074.html

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