Contra a implantação de um estado de exceção
Democracia não pode suportar exceções: existe ou não existe. Precisa saber lidar com o que eclode na sociedade. Mas tem exceções desde sempre, porque democracia burguesa é para burgueses
16/09/2013
Elizabeth Lorenzotti
Seja você contra os Black Blocs, mas não seja a favor dos procedimentos policiais de invasão de casas, de prisões fora da lei, da tentativa de implantação de um estado de exceção. Esses procedimentos, aliás, já se davam mesmo antes da eclosão dos Black Blocs, e em todo o canto, numa crescente, desde as jornadas de junho . (No Rio Grande do Sul, por exemplo, não foi explicada até agora a invasão (!!!) da sede da Federação Anarquista, com confisco de livros, inclusive uma obra patrocinada pela Secretaria de Cultura local e com prefácio de Olívio Dutra).
Alguns dirão que eles pediram. Talvez concordem com os estupradores, quando dizem que as mulheres estupradas pediram, porque usavam roupas provocantes? Isso não tem nada a ver? Tem sim. Tem a ver com a sociedade em que vivemos e o seu controle. Tem a ver com as causas do surgimento de uma tática (não é um movimento) como a dos Black Blocs.
Tem a ver com a falência do sistema político-partidário, em nível mundial. Tem a ver com a hipocrisia das esquerdas no poder mundial, com suas alianças espúrias, tem a ver com corações e mentes empedernidos. Quanto à direita, nem é preciso mencionar: é o horror. Tem a ver com a falência do nosso "modo de vida", imerso no consumo, a reboque do sistema financeiro, a reboque de meia dúzia de transnacionais que governam o mundo. Porque, todos sabemos, governos são meros subordinados das grandes corporações -- e já dizia Milton Santos, que dava especial atenção à dominação via corporações de Comunicação (que falta ele faz!).
Eu não posso crer quando escuto e leio pessoas aparentemente progressistas, nas redes sociais, nos jornais e nas esquinas pedindo repressão para Black Blocs. Acusando-os de "ligações internacionais", quando a ditadura fazia o mesmo com militantes de esquerda, inclusive com tantos que estão hoje no governo.
Democracia não pode suportar exceções: existe ou não existe. Precisa saber lidar com o que eclode na sociedade. Mas tem exceções desde sempre, porque democracia burguesa é para burgueses. Não fosse assim, latifundiários mandantes de massacres, condenados, estariam na cadeia e não soltos. Assassinos confessos e condenados não teriam liberdade durante o dia, como acaba de acontecer com o ex-diretor de redação do jornal “O Estado de S. Paulo”, Pimenta Neves, assassino de Sandra Gomide. Presos não seriam submetidos a torturas e tantos, tantos outros horrores cotidianos. (“Nós sobrevivemos ao pau-de- arara/ Mas o pau-de-arara também sobreviveu”, diz o poema do sobrevivente Alípio Freire).
Não vou escrever tratados, escrevo apenas o que sinto. E me sinto péssima com o que li nas redes sociais sobre o que aconteceu com a estudante da Universidade Federal Fluminense Maíra Cupolillo Alvarez, de 22 anos. A moça é citada no inquérito que apura a atuação dos Black Blocs nos protestos. Em viagem à Bolivia, Maíra foi para a Argentina, onde pretende pedir asilo. A casa onde Maíra mora com os pais foi invadida e apreendidos computadores, laptops, pen drives e câmeras fotográficas . Ela não foi presa porque estava viajando.
Sua prima, Fernanda Miana Cypolillo escreveu na rede: “Acabei chegar em casa e ficar sabendo de uma notícia chocante e inacreditável. A polícia civil invadiu a casa de um tio e de uma prima e levaram todos os equipamentos eletrônicos, todos, além de livros, quadros e outras coisas!!!!! Reviraram a casa de cima a baixo e só não levaram minha prima presa por ela estar viajando de férias. Isso simplesmente porque ela supostamente é filiada a um movimento anarquista. A grande mídia está divulgando inverdades e absurdos sobre a situação! Chamando a minha prima de 'foragida'... Peço a ajuda de amigos jornalistas, da mídia e todos que se sensibilizem com a situação para denunciar esse ato vergonhoso, absurdo, que cheira a ditadura!”
Sou solidária com Maíra, sua família, sua prima e com todos os que estão nesta situação. Assim como sou e sempre fui solidária com os sem terra, os sem sindicato, os sem teto, os excluídos, os esquecidos, os humilhados, os invisíveis, os escravizados, as famílias dos mortos, os sacrificados diariamente. Com todos os Amarildos desaparecidos. Com aqueles que pensam diferente, com os que não se enquadram em modelos do século 20, falidos. Com os outsiders da vida e da arte. Com os que sempre lutaram por pão e liberdade.
Elizabeth Lorenzotti é jornalista e escritora, autora de Suplemento Literário - Que falta ele faz! Tinhorão, o Legendário e de As Dez Mil Coisas.
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